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Um papo sobre sanfona, cosmologia e se reconhecer latino com Marcelo Jeneci

Cantor estreia seu show junino próprio no Canto da Ema em SP

 

Poucos artistas da música brasileira conseguem falar sobre sanfona, cosmologia, Luiz Gonzaga, cumbia, bandas de pífano e América Latina dentro da mesma conversa sem soar acadêmicos ou distantes. Marcelo Jeneci é um deles. Filho de Manuel Jeneci, pioneiro na eletrificação da sanfona no Brasil, o cantor cresceu entre Guaianases, na zona leste de São Paulo, e o agreste pernambucano. A música nordestina sempre esteve em sua vida, muito antes de sucessos como “Pra Sonhar”, “Felicidade” e “Amado”.

Agora, essa relação ganha um novo capítulo. No próximo dia 17 de julho, o músico estreia o “São João de Jeneci”, no Canto da Ema, em São Paulo. O espetáculo reúne canções de “Caravana Sairé” e “Night Club Forró Latino”, além de músicas inéditas e participações de Janaína Pereira e Thaís Nogueira.

Mais do que um show, Jeneci vê o projeto como o início de uma tradição. Durante a conversa com a Billboard Brasil, o cantor falou sobre identidade latino-americana, a importância da cultura nordestina, o papel social da música popular e revelou que já pensa em transformar o projeto em um evento anual — e talvez até em um disco.

Billboard Brasil: O São João sempre esteve presente na sua vida. O que esse período desperta em você hoje, como artista e como pessoa?

A gente está fazendo essa entrevista na manhã de São João, depois dessa preciosa noite de solstício. Para mim, é um momento em que a luz se refaz no ventre dela, e não que a luz acaba. O São João tem essa relação cosmológica e também uma relação muito forte com a nossa festa junina.

A música popular brasileira construída a partir do Nordeste ganha bastante destaque nesse período. Eu sou sanfoneiro, então ser sanfoneiro é fazer parte diretamente dessa festa, garantindo a alegria e a dança do povo através da sanfona. É um momento muito bom, que desperta e convoca a nossa fogueira interna, o afeto e a nossa qualidade suprema brasileira.

Como foi construir o repertório do “São João de Jeneci”?

Nos últimos anos, eu lancei dois discos ligados à sanfona. O primeiro foi “Caravana Sairé”, em que reverencio os grandes arquitetos da melodia e da poesia do sertão. Depois veio “Night Club Forró Latino”, que já amplia esse universo e soma a instrumentação do forró às disponibilidades da música latina.

O repertório do show traz a somatória desses dois trabalhos, anuncia canções inéditas e também me autoriza internamente a fazer desse São João um ponto de partida para uma festa que eu quero que aconteça anualmente. A cada ano quero convidar participações diferentes e até sugestões inusitadas. Começamos com Janaína Pereira e Thaís Nogueira, mas no futuro quero trazer artistas improváveis para essa festa.

O que Janaína Pereira e Thaís Nogueira representam para esse espetáculo?

Marcelo Jeneci: Primeiro, a energia matriarca delas. As mulheres são fundamentais na música popular brasileira construída a partir do Nordeste. Temos Marinês, Elba Ramalho, Janaína e Thaís. É uma reverência à mulher compositora e intérprete ligada a esse gênero musical. E também um desejo de que elas tragam seu axé, suas canções e seus sucessos para cantarmos juntos.

O “Night Club Forró Latino” aproximou forró, cumbia, bachata e outros ritmos. Como surgiu essa vontade?

Do fato de a gente não se reconhecer como latino. Acho que isso acontece porque o português é o nosso idioma, enquanto os países ao redor falam espanhol. Se me perguntarem na Europa para indicar um artista latino, eu vou indicar Chico César… Artistas brasileiros. Primeiro existe essa afirmação. Depois, vem a riqueza sonora dessa fusão. É uma música feita pelo mesmo sol da linha do Equador. O baião, o xaxado e o xote estão prontos para conversar com a cumbia, com o reggae maranhense, com o três cubano, com o violão flamenco.

Você sente que existe uma distância entre a percepção da cultura nordestina no Sudeste e no próprio Nordeste?

Eu sinto que tenho uma obrigação social em relação a isso. Cresci em Guaianases e também no agreste de Pernambuco. Essa distância entre os dois lugares é muito grande. Tenho um dever social de mostrar para quem é daqui o meu olhar apaixonado para esse lugar que dá música boa o ano inteiro e não somente nos festejos juninos.

Antes de Gilberto Gil, antes de Caetano Veloso, existia Onildo Almeida. Existia Luiz Gonzaga. Antes da Tropicália existiam as bandas de pífano. A gente não vê essa informação circulando na formação da música brasileira. Meu desejo é sugerir um olhar mais abrangente para a cultura popular brasileira.

Você já imagina o São João de Jeneci se transformando em um disco ou em um registro audiovisual?

Estou pensando nisso agora, a partir da sua sugestão. Eu não tinha visualizado isso ainda. Talvez seja o caso de fortalecer essa fusão que a festa vai proporcionar, com convidados especiais que transcendam a obviedade do gênero. Um disco tomando tudo o que conquistei de sonoridade por meio das bandas de pífano, da música latina e da sanfona que Dominguinhos me deu pode gerar um disco e um audiovisual muito bonitos.

O que significa começar esse projeto justamente no Canto da Ema?

Tenho o maior orgulho de começar essa festa lá. Sou filho do Manuel Jeneci, pioneiro na eletrificação da sanfona no Brasil, e, ainda adolescente, acompanhava meu pai no Canto da Ema para entregar sanfonas para Dominguinhos, Oswaldinho, Sivuca, Waldonys e tantos outros.

É um lugar muito íntimo para mim. Eu me sinto acolhido por esses gigantes da sanfona e por essas vozes que fazem parte da trilha sonora da minha família desde que eu era pequeno. É muito especial inaugurar essa festa lá porque sinto que vou reunir também esses signos invisíveis, e às vezes visíveis, que fortalecem o caminho desse projeto.

 

Fonte: Billboard Brasil

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