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Por quatro décadas, o cigarro fez parte da rotina de Eliane Fátima Gomes, de 55 anos. Ela fumou pela primeira vez aos 15 e chegou a consumir um maço por dia. “Estava me dominando. Eu acordava de madrugada só para fumar. Antes de lavar o rosto, acendia um cigarro”, conta. Com o tempo, além da dependência, vieram os problemas de saúde, como pressão alta e alterações na pele. A mudança começou após um exame de rotina, quando conheceu o tratamento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Em abril deste ano, Eliane completa um ano sem fumar. “Minha vida melhorou 100%. Eu não sinto mais aquele cansaço, minha pele voltou ao normal, meu cabelo também. Hoje estou super bem. Passaria por tudo de novo”, afirma. Em contraste com o aumento do consumo de cigarro no país, cresce em Minas Gerais a procura por tratamento. O número de participantes que iniciaram o acompanhamento na rede pública passou de 5.745, em 2021, para 10.295, em 2025, aumento de 79%, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). Em 2024, haviam procurado ajuda 8.194 pessoas.
O atendimento é ofertado principalmente na Atenção Primária à Saúde, porta de entrada do SUS, e inclui avaliação clínica, sessões individuais ou em grupo e, quando necessário, apoio medicamentoso. Atualmente, 847 dos 853 municípios mineiros estão habilitados a oferecer o tratamento. Apesar do apoio oferecido, parar de fumar é desafiador. Eliane relata que o processo exigiu esforço contínuo. “O adesivo não faz milagre. Você tem que querer. É igual qualquer vício. Tem que colocar na cabeça que vai vencer”, diz.
A dificuldade também marcou a trajetória de Maria*, de 21 anos, que fumou por seis anos. A decisão de parar veio após uma sessão de terapia e a percepção de histórico de dependência química na família. Nos primeiros meses, enfrentou abstinência intensa. “Foi horrível. Eu não dormia, ficava mal-humorada. Minha saúde estava péssima”, relata.
Com o tempo, os sintomas diminuíram e os efeitos positivos começaram a aparecer. “Depois de uns dois meses, comecei a sentir melhora na pele, no corpo e na saúde. Fora a sensação de liberdade de não depender do vício”, afirma. Para conseguir interromper o hábito, ela precisou mudar a rotina e se afastar temporariamente do convívio social.
A professora Erika Gisseth Leon Ramirez, do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da UFMG, alerta para a relação equivocada entre cigarro e alívio da ansiedade. “A nicotina é uma substância estimulante. Ela aumenta a frequência cardíaca e os sintomas ansiosos. A sensação de alívio é uma associação psicológica. Isso cria um ciclo: a pessoa fica mais ansiosa e fuma mais”, afirma.
Além das campanhas de conscientização, o governo de Minas informou repassar recursos aos municípios para ações de prevenção e controle do tabagismo. As iniciativas incluem qualificação de profissionais de saúde, distribuição de materiais técnicos e oferta de medicamentos.
Procurado pela reportagem sobre os investimentos feitos no enfrentamento ao tabagismo, o Ministério da Saúde informou ter destinado R$ 340 milhões no Viva Mais Brasil, voltado à melhoria da qualidade de vida da população. Além disso, destacou que o SUS oferece tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar e que, no Brasil, os atendimentos ambulatoriais passaram de 9,9 mil, em 2023, para 14,3 mil, em 2024.
O câncer de pulmão é um dos tipos mais letais e tem no cigarro o principal fator de risco. Substâncias presentes na fumaça do tabaco causam danos progressivos às células do sistema respiratório, o que pode levar ao desenvolvimento de tumores ao longo dos anos. Em Minas Gerais, a estimativa é de 3.580 novos casos da doença, com taxa bruta de 16,70 por 100 mil habitantes, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Segundo a professora Erika Gisseth Leon Ramirez, há evidências científicas que associam o uso de produtos derivados do tabaco a uma série de doenças. “Esses produtos causam lesões pulmonares agudas e crônicas. Também temos alterações na cavidade oral e uma variedade de câncer, como de pulmão, língua e boca”, explica.
A especialista destaca ainda que os impactos vão além das doenças respiratórias. “Também há alterações comportamentais e de saúde mental, como ansiedade e depressão”, afirma.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano no mundo. Desse total, mais de 7 milhões são decorrentes do consumo direto, enquanto cerca de 1,2 milhão de mortes estão relacionadas à exposição ao fumo passivo.
No Brasil, 477 pessoas morrem por dia em decorrência do tabagismo, conforme o Ministério da Saúde. A pasta também reconhece o tabagismo como uma doença crônica, associada a pelo menos 50 enfermidades, como câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias.
O tratamento contra o tabagismo é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pode ser iniciado em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) em todo o país. O acompanhamento inclui avaliação clínica, sessões individuais ou em grupo e, quando necessário, uso de medicamentos, como adesivos, pastilhas e gomas de nicotina, além da bupropiona, medicamento que atua no cérebro aumentando substâncias ligadas ao prazer e ao humor, o que ajuda a diminuir a vontade de fumar.
O objetivo é reduzir a dependência física e psicológica do cigarro, dentro das diretrizes do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, que também atua na prevenção, principalmente entre jovens, e na redução dos danos causados pelo tabaco.
Fonte: otempo.com.br